Cartas de Outono

Capítulo 3

O café das quintas

Por Helena Vasconcelos · 8 de novembro de 2026 · 8 min de leitura

As cartas se tornaram o melhor momento da semana. Clara falava sobre seu trabalho como restauradora de móveis antigos; Rafael contava sobre as aulas de violão que dava para crianças no bairro. Eles discordavam sobre finais de livros e concordavam sobre quase todo o resto.

Foi na sexta carta que ele escreveu: "Talvez seja hora de ouvirmos a voz um do outro. Quinta-feira, às cinco, aqui mesmo. Vou estar na mesa perto da janela, com um livro azul. Se você não vier, vou entender — e continuarei escrevendo."

Clara passou a semana inteira ensaiando o que diria. Na quinta, trocou de roupa duas vezes, riu de si mesma e saiu de casa com o romance azul debaixo do braço.

Quando entrou na livraria, o sininho tocou como da primeira vez. Perto da janela, um rapaz de suéter verde levantou os olhos do livro. Ele sorriu — um sorriso calmo, sem pressa — e se levantou.

— Clara?

— Rafael.

Não houve grandes discursos. Houve café, risadas nervosas que logo ficaram leves, e a sensação de que conheciam um ao outro há muito mais tempo do que algumas semanas de cartas.