Capítulo 1
A livraria da esquina
Por Helena Vasconcelos · 3 de novembro de 2026 · 6 min de leitura
Era uma tarde de chuva fina em Ouro Preto, daquelas que deixam as pedras da rua brilhando como espelhos. Clara tinha saído do trabalho mais cedo e, sem pressa de voltar para casa, empurrou a porta de madeira da pequena livraria da esquina. O sininho tocou baixinho, como quem dá boas-vindas a uma velha amiga.
Lá dentro, o cheiro de papel antigo e café recém-passado a envolveu. Ela caminhou entre as estantes estreitas, passando os dedos pelas lombadas gastas, até que um volume de capa azul chamou sua atenção: um romance de 1952, com as bordas amareladas pelo tempo.
Ao abrir o livro, um pequeno envelope deslizou para o chão. Não estava endereçado a ninguém. Dentro, uma folha dobrada com uma caligrafia cuidadosa dizia apenas: "Para quem encontrar esta carta: o mundo ainda guarda gentilezas. Se você precisar de uma hoje, esta é a sua."
Clara sorriu sem perceber. Havia algo de terno naquela frase simples, escrita por um desconhecido. Ela guardou o bilhete no bolso do casaco, comprou o livro e, antes de sair, perguntou ao livreiro se ele sabia de onde vinha a carta.
— Ah — respondeu o senhor de óculos redondos, com um brilho nos olhos. — Há um rapaz que vem aqui toda quinta-feira. Ele deixa cartas nos livros. Diz que é a sua forma de conversar com o mundo.
Naquela noite, Clara releu o bilhete três vezes antes de dormir. E, pela primeira vez em muito tempo, decidiu escrever uma resposta.